sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Desabafo de uma branca não-branca



Eu já quis ser índia, para gozar de inimputabilidade. Já quis ser negra, para conseguir entrar mais facilmente numa universidade através do sistema de cotas. Já quis ser homoafetiva, para me casar num país que concede descontos no imposto de renda a casais gays. Mas não sou nada disso.

A verdade é que, por ter nascido com a pele clara (e eu não digo branca, porque não o sou), nunca pude gozar de nenhum benefício que pudesse me ser concedido sob o pretexto de que meus antepassados sofreram (apesar de saber que muitos constantes em minha árvore genealógica sofreram mais do que muita gente pensa ou imagina).

As primeiras evidências de que o brasileiro carregava em suas células os materiais genéticos de índios, africanos e europeus, surgiram em abril de 2000, quando o país comemorou os cinco séculos da chegada do colonizador português a este lado do Atlântico ou os 500 anos do descobrimento do Brasil. Aproveitando a data oportuna, Pena publicou – primeiro na revista Ciência Hoje, de divulgação científica, e depois no periódico acadêmico American Journal of Human Genetics  – o trabalho que chamou de “Retrato molecular do Brasil”. Nesse estudo com 200 brasileiros das regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul, o geneticista da UFMG constatou que, na realidade, 33% descendiam de índios por parte de mãe e 28% de africanos.

Trocando em miúdos, nunca se saberia onde a mistura está, a não ser que se mapeasse a mitocôndria do sujeito. Mas há quem teime em dizer que a cor da pele (responsabilidade de um só conjunto de genes) já é o suficiente para lhe dar um presentão, dadas as marcas que os antepassados malvadões e brancos deixaram em seus antepassados coitadinhos e de outras raças.

Notem bem: não estou negando a verdade histórica de que índios foram perseguidos e negros escravizados, nem tampouco excluindo a perversidade européia no que tange à colonização dos países, digamos, mais atrasados em termos de tecnologia.

O desabafo se dá por conta do paternalismo, que substitui ações políticas mais profundas: o que a maioria das organizações (inclui-se aqui o próprio governo) faz hoje é dar um espelhinho pro índio. Um bocado de terra. Uma camisa velha da seleção.
Para os afrodescendentes, uma bolsa na universidade. Uma forma de mostrar a eles (mesmo que forem ricos), que nossa sociedade tem pena de seu passado e quer ajudá-lo a seguir em frente.

Fico intrigada com o fato de meus antepassados não serem reconhecidos como batalhadores, sofredores, pobres nas mãos de ricos e que foram jogados no Brasil, fugidos de políticas tenebrosas pela Europa afora. A não ser pela sorte de ter pais trabalhadores e que me orientaram moralmente para o caminho do respeito e da igualdade, minha genealogia não serve para me trazer benefícios: pelo contrário. Ela só faz engrossar o caldo dos culpados por um tempo que não existe mais. É a letra escarlate que eu tenho de carregar no peito a cada vez que sou encarada por um diferente de mim. Ao mesmo tempo em que me exalta, ela me diminui, me marginaliza, me culpa por um passado que não foi meu.

Eu poderia me esconder por trás do rótulo de mulher. O sexo frágil já esteve mais em alta no passado, mas ainda tem lá os defensores de um paternalismo (irônico, não?) para as políticas viradas a ele. Não o farei.

Estamos num momento onde a única forma é parar de se ver como um pedaço: seja cor, sexo, direcionamento afetivo. Somos tudo isso somados, indissociavelmente. Não seria justo me classificar por um pedaço de mim, só para obter a vantagem da ocasião.

Sou gente. Ser humano. Dane-se a cor. Dane-se a raça. Dane-se a genealogia. Sentir orgulho do que se é ou de onde se veio não enriquece ninguém. Envaidecer-se só traz consigo o egoísmo, que se desdobra em bairrismo, em guetos, panelas...

Quero um mundo melhor para todos os que estão por aqui, dividindo este mundo comigo. Para nossos filhos. Um mundo sem a necessidade de discriminação de cores. Daltônico, se precisar. E com muito amor e respeito, porque o resto, se ajeita no tempo.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Da inapetência de se ser si mesmo

Lendo o Rubem Alves e o Francisco da Veiga, pensei que pudesse clarear meus pensamentos sobre a incrível arte de se relacionar. Lêdo engano. Não há o que lhe prepare para algumas situações que estouram, nem para os desdobramentos inacessíveis do abismo do outro, quando esse derrama em você.
Sempre pensei que ser um casal fosse uma tarefa fácil, em parte por causa da vivência romântica dos contos de fadas, em parte por causa da minha própria necessidade fantástica de ver a vida sob a ótima romântico-idealizada, rodeada de dramas banais e dilemas burgueses de ser-não ser. Nesse ínterim, cri no outro como um depositário de esperanças (mesmo que algumas falsas) e mistérios, sem perder a confiança e o fato de se estar acima do mundo, acima dos dilemas dos outros: um casal de verdade, verdade mesmo, enfrenta o mundo contra a desonra de seu amado outro e isso é condição para que existam e perpetuem.
Pois bem. Às vezes não é assim tão belo quanto soa e, a bem da história poética da humanidade, há quem deva ler Othelo antes de amar qualquer pessoa.
Considerando que formar um casal deva significar, em algum nível, confiar e ser confiado, até que ponto a neurose formadora de opinião pode opinar sobre a verdade dos fatos? Ora, é óbvio que há três verdades sempre que há três sujeitos: a sua, a minha, e a factual, que nada mais deve ser do que a sua e a minha despidas da interpretação pessoal. Pois bem. Suponha que haja esse casal, que se ama e se respeita, que caminha junto há anos e constituiu família, e aconteça tal fato hipotético: ambos, no mercado, juraram só comprar peras. No carrinho de compras, em meio às peras, havia também uma maçã. Ele jurou que foi ela, justamente naquela hora em que ele não estava olhando: fora à pia lavar as mãos antes de passar no caixa. Ela jurou que não foi. A maçã pode ter caído da cesta ao lado, fôra guardada por outrem, brotara do meio das outras: sua verdade era a de que não sabia como aquela fruta estacionara ali. Em uma manobra imbuída de falta de compreensão cega (já que sua razão não conseguira explicar a maçã no meio das peras), ele a crucifica: eu sabia que você faria isso mais cedo ou mais tarde. Me fez de palhaço, dizendo não gostar de maçãs! Eu exijo uma explicação! Exijo! Ela não a tinha: jurara não entender como a maçã fora parar ali; sim, guiara o carrinho de compras até aquele momento, e, sim, fora responsável por tomar conta dele enquanto estavam no mercado, mas não plantara a maçã no meio das peras. Sabia que não o fizera. Tinha certeza, ora bolas, estava lúcida! Mas sua certeza não era nada para o outro, porque não era a certeza dele. Naquela hora, tudo o que ele queria ouvir era que ela confessasse ter plantado ali a maçã: assim ele não precisaria trair a própria razão, não precisaria desafiar a lógica matemática que nada tem a ver com a lógica do amor (que não tem lógica e segue o poema de Santo Agostinho "te amo porque te amo"). Mas ela não a plantara. É claro que ela já fizeram bobagens antes, bobagens lúcidas: falara mal dos parentes dele, amaldiçoou a gola da camisa enquanto a passava a ferro, guardou com raiva os sapatos dele que ele teimava em deixar espalhados pela cozinha, mas era isso. Ele também fizera as mesmas bobagens: e que casal segue uma vida inteira sem reclamar dalgumas coisinhas? Do copo de água que fica dias no criado mudo, ao lado da cama?
Pois bem. A conclusão.
Ele ficou triste, por não estar convencido.
Ela ficou triste, por seu esforço significar tão pouco ou nada.
Estavam cansados, mas, enfim, havia a vida inteira para reconstruirem-se... e não é sempre assim?

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Das farsas e mesuras

"E a verdade os libertará", reza a Bíblia. Então, por que diabos não falamos sempre a verdade?
Mentirinhas  brancas, omissões que vão dos pequenos fatos a grandes feitos e aquela sujeira que teimamos em varrer para debaixo do tapete, sem perceber que aquele tapete fica em nossa própria sala de estar! A mentira é o cadáver enterrado no quintal de cada um. As mesuras mentirosas, as farsas, as vozinhas infantis quando não suportamos usar nossa verdadeira voz com determinadas pessoas.
Decerto há quem seria completamente sozinho, dissesse sempre a verdade a seus termos. Antes ser assim, contudo, que enredar outros em sua névoa do famoso: "mas eu não sei o que fulano está pensando, não sei o que vem em seguida". Quanta gente a gente acha que precisa aturar vida afora, só porque é da família, vizinho, cliente, primo do cunhado. Exemplo claro? Façamos uma lista de gente de que não gostamos, por quaisquer motivos. Depois, dessas pessoas, vamos nos perguntar a quantas mentimos quase que  constantemente (notando que mentir não significa simplesmente dar uma informação errada, mas também tratar com falsidade ou fingir que não está no chat, etc.). Faça a mesma lista para as pessoas que gosta e compare-as. Você ficará surpreso com o tanto de hipocrisia que puxou para carregar nas próprias costas!