Eu já quis ser índia, para gozar de inimputabilidade. Já quis ser negra, para conseguir entrar mais facilmente numa universidade através do sistema de cotas. Já quis ser homoafetiva, para me casar num país que concede descontos no imposto de renda a casais gays. Mas não sou nada disso.
A verdade é que, por ter nascido com a pele clara (e eu não digo branca, porque não o sou), nunca pude gozar de nenhum benefício que pudesse me ser concedido sob o pretexto de que meus antepassados sofreram (apesar de saber que muitos constantes em minha árvore genealógica sofreram mais do que muita gente pensa ou imagina).
As primeiras evidências de que o brasileiro carregava em suas células os materiais genéticos de índios, africanos e europeus, surgiram em abril de 2000, quando o país comemorou os cinco séculos da chegada do colonizador português a este lado do Atlântico ou os 500 anos do descobrimento do Brasil. Aproveitando a data oportuna, Pena publicou – primeiro na revista Ciência Hoje, de divulgação científica, e depois no periódico acadêmico American Journal of Human Genetics – o trabalho que chamou de “Retrato molecular do Brasil”. Nesse estudo com 200 brasileiros das regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul, o geneticista da UFMG constatou que, na realidade, 33% descendiam de índios por parte de mãe e 28% de africanos.
Trocando em miúdos, nunca se saberia onde a mistura está, a não ser que se mapeasse a mitocôndria do sujeito. Mas há quem teime em dizer que a cor da pele (responsabilidade de um só conjunto de genes) já é o suficiente para lhe dar um presentão, dadas as marcas que os antepassados malvadões e brancos deixaram em seus antepassados coitadinhos e de outras raças.
Notem bem: não estou negando a verdade histórica de que índios foram perseguidos e negros escravizados, nem tampouco excluindo a perversidade européia no que tange à colonização dos países, digamos, mais atrasados em termos de tecnologia.
O desabafo se dá por conta do paternalismo, que substitui ações políticas mais profundas: o que a maioria das organizações (inclui-se aqui o próprio governo) faz hoje é dar um espelhinho pro índio. Um bocado de terra. Uma camisa velha da seleção.
Para os afrodescendentes, uma bolsa na universidade. Uma forma de mostrar a eles (mesmo que forem ricos), que nossa sociedade tem pena de seu passado e quer ajudá-lo a seguir em frente.
Fico intrigada com o fato de meus antepassados não serem reconhecidos como batalhadores, sofredores, pobres nas mãos de ricos e que foram jogados no Brasil, fugidos de políticas tenebrosas pela Europa afora. A não ser pela sorte de ter pais trabalhadores e que me orientaram moralmente para o caminho do respeito e da igualdade, minha genealogia não serve para me trazer benefícios: pelo contrário. Ela só faz engrossar o caldo dos culpados por um tempo que não existe mais. É a letra escarlate que eu tenho de carregar no peito a cada vez que sou encarada por um diferente de mim. Ao mesmo tempo em que me exalta, ela me diminui, me marginaliza, me culpa por um passado que não foi meu.
Eu poderia me esconder por trás do rótulo de mulher. O sexo frágil já esteve mais em alta no passado, mas ainda tem lá os defensores de um paternalismo (irônico, não?) para as políticas viradas a ele. Não o farei.
Estamos num momento onde a única forma é parar de se ver como um pedaço: seja cor, sexo, direcionamento afetivo. Somos tudo isso somados, indissociavelmente. Não seria justo me classificar por um pedaço de mim, só para obter a vantagem da ocasião.
Sou gente. Ser humano. Dane-se a cor. Dane-se a raça. Dane-se a genealogia. Sentir orgulho do que se é ou de onde se veio não enriquece ninguém. Envaidecer-se só traz consigo o egoísmo, que se desdobra em bairrismo, em guetos, panelas...
Quero um mundo melhor para todos os que estão por aqui, dividindo este mundo comigo. Para nossos filhos. Um mundo sem a necessidade de discriminação de cores. Daltônico, se precisar. E com muito amor e respeito, porque o resto, se ajeita no tempo.
Pois é, perguntemos ao Maarrrrciaaaaano de Domingos Martins (pomerano, praticamente um redneck). Por que não tem cota pra ele na universidade??
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