Lendo o Rubem Alves e o Francisco da Veiga, pensei que pudesse clarear meus pensamentos sobre a incrível arte de se relacionar. Lêdo engano. Não há o que lhe prepare para algumas situações que estouram, nem para os desdobramentos inacessíveis do abismo do outro, quando esse derrama em você.
Sempre pensei que ser um casal fosse uma tarefa fácil, em parte por causa da vivência romântica dos contos de fadas, em parte por causa da minha própria necessidade fantástica de ver a vida sob a ótima romântico-idealizada, rodeada de dramas banais e dilemas burgueses de ser-não ser. Nesse ínterim, cri no outro como um depositário de esperanças (mesmo que algumas falsas) e mistérios, sem perder a confiança e o fato de se estar acima do mundo, acima dos dilemas dos outros: um casal de verdade, verdade mesmo, enfrenta o mundo contra a desonra de seu amado outro e isso é condição para que existam e perpetuem.
Pois bem. Às vezes não é assim tão belo quanto soa e, a bem da história poética da humanidade, há quem deva ler Othelo antes de amar qualquer pessoa.
Considerando que formar um casal deva significar, em algum nível, confiar e ser confiado, até que ponto a neurose formadora de opinião pode opinar sobre a verdade dos fatos? Ora, é óbvio que há três verdades sempre que há três sujeitos: a sua, a minha, e a factual, que nada mais deve ser do que a sua e a minha despidas da interpretação pessoal. Pois bem. Suponha que haja esse casal, que se ama e se respeita, que caminha junto há anos e constituiu família, e aconteça tal fato hipotético: ambos, no mercado, juraram só comprar peras. No carrinho de compras, em meio às peras, havia também uma maçã. Ele jurou que foi ela, justamente naquela hora em que ele não estava olhando: fora à pia lavar as mãos antes de passar no caixa. Ela jurou que não foi. A maçã pode ter caído da cesta ao lado, fôra guardada por outrem, brotara do meio das outras: sua verdade era a de que não sabia como aquela fruta estacionara ali. Em uma manobra imbuída de falta de compreensão cega (já que sua razão não conseguira explicar a maçã no meio das peras), ele a crucifica: eu sabia que você faria isso mais cedo ou mais tarde. Me fez de palhaço, dizendo não gostar de maçãs! Eu exijo uma explicação! Exijo! Ela não a tinha: jurara não entender como a maçã fora parar ali; sim, guiara o carrinho de compras até aquele momento, e, sim, fora responsável por tomar conta dele enquanto estavam no mercado, mas não plantara a maçã no meio das peras. Sabia que não o fizera. Tinha certeza, ora bolas, estava lúcida! Mas sua certeza não era nada para o outro, porque não era a certeza dele. Naquela hora, tudo o que ele queria ouvir era que ela confessasse ter plantado ali a maçã: assim ele não precisaria trair a própria razão, não precisaria desafiar a lógica matemática que nada tem a ver com a lógica do amor (que não tem lógica e segue o poema de Santo Agostinho "te amo porque te amo"). Mas ela não a plantara. É claro que ela já fizeram bobagens antes, bobagens lúcidas: falara mal dos parentes dele, amaldiçoou a gola da camisa enquanto a passava a ferro, guardou com raiva os sapatos dele que ele teimava em deixar espalhados pela cozinha, mas era isso. Ele também fizera as mesmas bobagens: e que casal segue uma vida inteira sem reclamar dalgumas coisinhas? Do copo de água que fica dias no criado mudo, ao lado da cama?
Pois bem. A conclusão.
Ele ficou triste, por não estar convencido.
Ela ficou triste, por seu esforço significar tão pouco ou nada.
Estavam cansados, mas, enfim, havia a vida inteira para reconstruirem-se... e não é sempre assim?
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